Seja marginal, seja herói: a revolução em sua legítima razão

Confira a sinopse do enredo do
Império Serrano para o Carnaval 2027

“Eu não tenho culpa de retratar a história.

Não fui eu que a escrevi. ”

Silas de Oliveira

SINOPSE

Pelo fim da tirania e do medo que atravessou ditaduras, perseguições, censuras, porões e exílios. 

Pelo fim da violência que tentou reduzir nossos sonhos a cinzas. Incendiaram arquivos, bandeiras e livros na ilusão de que o fogo pudesse silenciar ideias. Levaram companheiros, perseguiram vozes. Tentaram sufocar a nossa sede de liberdade.

Mas esqueceram que o conhecimento não arde nas chamas e nem a memória se rende à fumaça. Das ruínas do velho prédio na Praia do Flamengo ergueu-se ainda mais forte a centelha da resistência. Porque a chama da revolução jamais será apagada pelo ódio.

Não passaremos mais noites e dias entre o lamento e a agonia. Das ruas, das salas de aula e grêmios estudantis, dos palcos e terreiros, dos cineclubes e barracões ergueremos trincheiras pela liberdade. Somos corações de estudante pulsando pelo mesmo ideal. Nenhuma força será capaz de silenciar uma juventude que aprendeu a sonhar de olhos abertos.

Por tantos Josés com sobrenome Silva, representando milhões de brasileiros que constroem este país. Herdeiros daqueles que lutaram e espelho para os que ainda virão. Não deixaremos esquecer que a democracia foi construída por pessoas que tiveram coragem de resistir e se organizar. Exaltemos aqueles que não aceitaram o papel de figurantes da própria história.

É preciso recriar o mundo. É preciso fazer arte! 

Não iremos repetir a velha antropofagia de salão. É tempo de reantropofagia: tomar de volta a palavra, o corpo e o canto. Fazer o Brasil pensar o Brasil por si mesmo. Transfigurar Woodstock, Berkeley, Cuba e o Maio de 68 em subúrbio, favela e terreiro, em cinema, teatro e samba. É tempo de contestar os valores e os padrões da sociedade dominante.

Reantropofagizar é fazer o Brasil se olhar pelo avesso. É transformar dores em linguagem. O Brasil jamais será cópia de outras revoluções. O Brasil inventa sua própria febre. É necessário fazer mais que cultura. É necessário fazer contracultura. 

Censura não cala a arte. É preciso estar atento e forte! É proibido proibir! 

Ergueremos novamente os Centros Populares de Cultura. Estenderemos o banquete crítico de O Rei da Vela. Invocaremos o Teatro Experimental do Negro. Convocaremos o Teatro de Arena, a palavra coletiva, o riso feroz, a cena em transe e a dramaturgia que fez do palco, trincheira. Penduraremos versos de Gullar nos muros, para que o povo reconheça na poesia, a real dimensão da desigualdade social.

Uma, duas, cinco vezes favela! Faremos Cinema Novo para expor as feridas que o Brasil tentou esconder. Câmera na mão, ideia na cabeça. O povo no centro do quadro. Se a terra estiver em transe faremos dela, denúncia. E a música, nossa forma antiga de desobediência, atravessará fronteiras. Escreveremos nas entrelinhas cantando a desordem do mundo. Transformaremos a nossa voz em tempestade.

Que a juventude transviada, marginalizada pelo sistema, seja a heroína da nação. Se questionar a opressão é ser chamado de baderneiro, então que sejamos baderneiros com orgulho. Para ser marginal é preciso ser herói.

A liberdade floresce nos subúrbios, ecoa nos terreiros e caminha pelas páginas vivas da história do nosso povo. Habita em cada voz que canta e em cada corpo que resiste enquanto o medo insiste em tombar.

A liberdade é teimosia! Renasce da memória dos que se foram. Cresce na luta dos que permaneceram. Encontra abrigo onde houver gente disposta a transformar o mundo.

Desceremos o morro de cara pintada caminhando e cantando, como bandeiras vivas, vestindo os parangolés de Hélio.

Faremos passeata.
        Faremos carnaval.
        Faremos do desfile, manifestação.

Desfilaremos para exaltar nossos heróis que desapareceram.  Em procissão, reivindicaremos nossos direitos. Cantaremos em coro, reergueremos em melodias o que a chama um dia tentou apagar. Gritaremos com orgulho os versos que atravessaram fronteiras e exílios, transformados por Ferreira Gullar em hino nacional como manifesto de resistência:

“Essa brisa que a juventude afaga

Esta chama que o ódio não apaga

Pelo universo é a evolução

Em sua legítima razão”

São noventa anos de uma juventude organizada que une o Brasil em defesa dos direitos, da democracia e da liberdade. São oitenta anos de um menino de 47, nascido para lutar. Cantando, transformando o samba em voz popular e a avenida em território de resistência. A Juventude e o Império Serrano se aliam para fazer um samba-enredo-manifesto pela liberdade.

Ontem, chamados de marginais, subversivos e baderneiros.
        Hoje, heróis de uma nação. Seguiremos vivendo. E por que não?

Porque a liberdade já raiou. É a revolução em sua legítima razão.

Enredo, pesquisa e texto: Manu Rosa, Jorge Sant’Anna e Renato Esteves.
Carnavalesco: Renato Esteves.

 

NOTAS EXPLICATIVAS

  1. União Nacional dos Estudantes (UNE) – Fundada em 1937, é a principal entidade representativa dos estudantes universitários brasileiros. Sua trajetória está ligada à defesa da educação pública, da democracia e dos direitos civis.
  2. Praia do Flamengo – Local da antiga sede nacional da UNE, incendiada após o golpe de 1964, um dos primeiros atos de repressão do regime militar, episódio que simboliza a tentativa de destruir a organização estudantil.
  3. José da Silva – Personagem central da peça A Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, José da Silva representa o trabalhador comum latino-americano submetido à exploração, à desigualdade e às injustiças sociais. Ao longo da narrativa, sua trajetória evidencia as contradições do sistema político e econômico, transformando-o em um símbolo da condição dos oprimidos e da necessidade de conscientização e organização coletiva. Por meio de sua figura, Boal constrói uma crítica ao autoritarismo e às estruturas de dominação que marcaram a história da América Latina. 
  4. Antropofagia – Conceito formulado por Oswald de Andrade em 1928, propondo ‘devorar’ criticamente influências estrangeiras para produzir cultura brasileira.
  5. Reantropofagia – é um movimento e conceito da arte contemporânea liderado por artistas e pensadores indígenas que retomam, questionam e ressignificam o conceito modernista da antropofagia cultural. Ela marca a devolução crítica do olhar sobre a história e os cânones ocidentais a partir da voz direta dos povos originários.
  6. Woodstock – Festival de música realizado entre 15 e 18 de agosto de 1969, na cidade de Bethel, estado de Nova York, nos Estados Unidos, que reuniu cerca de 400 mil pessoas e se tornou o maior símbolo da contracultura dos anos 1960. Marcado por apresentações históricas de artistas como Jimi Hendrix, Janis Joplin e The Who, o evento celebrou ideais de paz, liberdade, diversidade e contestação à Guerra do Vietnã. Seu legado ultrapassou a música, consolidando Woodstock como um ícone da juventude, da cultura hippie e dos movimentos de transformação social do século XX.estival de 1969 convertido em ícone da juventude e da contracultura.





  1. Berkeley – Cidade da Califórnia que abriga a Universidade da Califórnia, Berkeley, reconhecida como um dos principais centros da mobilização estudantil mundial. Na década de 1960, tornou-se símbolo da contracultura e da luta pela liberdade de expressão com o surgimento do Free Speech Movement, movimento que reivindicava direitos civis, participação política e o fim das restrições à manifestação nos campi universitários. Sua influência ultrapassou os Estados Unidos, inspirando movimentos estudantis e culturais em diversos países, incluindo o Brasil durante a resistência à ditadura militar.
  2. Maio de 1968 – Movimento de protestos estudantis e greves operárias ocorrido na França em maio de 1968, que contestou o autoritarismo, as desigualdades sociais e os valores conservadores da época. Marcado por ocupações universitárias, manifestações de rua e intensa mobilização popular, tornou-se um marco internacional da contracultura e da defesa das liberdades civis. Suas ideias influenciaram profundamente movimentos culturais e políticos em diversos países, incluindo o Brasil, onde inspiraram a resistência estudantil, a produção artística e a oposição à ditadura militar.rande ciclo de protestos estudantis e operários ocorrido na França.
  3. Contracultura – Movimento internacional de contestação aos padrões políticos, culturais e comportamentais dominantes, apropriado no Brasil como linguagem de resistência.
  4. “É preciso estar atento e forte” – Verso da canção ‘Divino Maravilhoso’, símbolo da vigilância democrática.
  5. “É proibido proibir” – Expressão que se tornou um dos principais símbolos da contestação estudantil e cultural da década de 1960, inspirada no movimento de Maio de 1968, na França. No Brasil, ganhou grande repercussão após a apresentação da canção homônima de Caetano Veloso, quando passou a representar a defesa da liberdade de expressão, da criação artística e da resistência ao autoritarismo imposto pela ditadura militar. Desde então, a frase tornou-se um lema da contracultura brasileira e da luta contra a censura e todas as formas de repressão.
  6. Centro Popular de Cultura (CPC) – Foi idealizado no final de 1961 e fundado oficialmente em 8 de março de 1962 no Rio de Janeiro, ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE) para aproximar arte e povo por meio do teatro, cinema, música e literatura.




  1. O Rei da Vela – Peça escrita por Oswald de Andrade em 1933 e encenada pela primeira vez pelo Teatro Oficina em 1967, sob direção de José Celso Martinez Corrêa. Considerada um marco da renovação do teatro brasileiro, a obra utiliza humor, sátira e linguagem experimental para criticar a burguesia, o capitalismo dependente e as estruturas de poder no Brasil. Sua montagem tornou-se um dos acontecimentos fundadores da Tropicália.
  2. Teatro Oficina – Companhia teatral fundada em 1958, em São Paulo, que se tornou um dos principais símbolos da renovação do teatro brasileiro. Sob a liderança de José Celso Martinez Corrêa, destacou-se pela experimentação cênica, pela crítica política e pelo diálogo com o Cinema Novo e o Tropicalismo. Durante a ditadura militar, suas montagens enfrentaram censura e perseguições, consolidando o grupo como um importante espaço de resistência cultural e de transformação das artes cênicas no Brasil.
  3. Teatro do Oprimido – Método teatral criado por Augusto Boal no início da década de 1970, que utiliza o teatro como instrumento de conscientização, participação popular e transformação social. Inspirado na pedagogia de Paulo Freire, rompe com a separação entre atores e espectadores ao transformar o público em participante ativo da cena, incentivando a reflexão crítica e a busca coletiva por soluções para situações de opressão. Tornou-se uma das mais influentes metodologias de teatro político do mundo, sendo aplicado em contextos educativos, comunitários e de defesa dos direitos humanos.
  4. Teatro Experimental do Negro – Movimento artístico e político fundado em 1944 por Abdias do Nascimento, que combateu o racismo por meio das artes cênicas e promoveu o protagonismo da população negra na cultura brasileira. Ao defender uma arte comprometida com a realidade social e com a transformação política, o Teatro Experimental do Negro antecipou princípios que seriam desenvolvidos pela contracultura, como a valorização dos grupos marginalizados, a crítica às desigualdades e a utilização da produção artística como instrumento de consciência, resistência e afirmação da identidade brasileira.
  5. Teatro de Arena – Movimento e companhia teatral fundada em 1953, em São Paulo, que revolucionou o teatro brasileiro ao propor uma dramaturgia voltada para a realidade nacional, as questões sociais e a formação de uma consciência crítica. Sob a liderança de Augusto Boal, e com a participação de autores como Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho, tornou-se um importante espaço de resistência cultural durante a ditadura militar. Sua proposta estética e política dialogou diretamente com a contracultura, ao defender uma arte comprometida com os problemas do povo brasileiro, valorizando o realismo, a crítica social e a transformação da realidade por meio da cultura.
  6. Penduraremos versos de Gullar – Produzida durante a década de 1960, especialmente no período em que Ferreira Gullar atuou nos Centros Populares de Cultura (CPC) da UNE, sua literatura de cordel apropriou-se da linguagem simples, rimada e narrativa da tradição popular nordestina para abordar temas políticos e sociais. Obras como João Boa-Morte, Cabra Marcado para Morrer utilizaram esse formato para denunciar as desigualdades, defender a reforma agrária e estimular a conscientização popular, tornando o cordel um importante instrumento de educação política e de resistência cultural no contexto que antecedeu a ditadura militar.
  7. Uma, duas cinco vezes favela – Filme lançado em 1962 e produzido pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, composto por cinco episódios dirigidos por jovens cineastas ligados ao Cinema Novo. A obra retrata o cotidiano das favelas cariocas sob diferentes perspectivas, abordando temas como pobreza, desigualdade, exploração do trabalho, organização popular e resistência. Considerado um marco do cinema político brasileiro, o filme buscou aproximar a produção cinematográfica das questões sociais do país, utilizando uma linguagem realista e comprometida com a transformação da realidade brasileira.
  8. Cinema Novo – Movimento de renovação cinematográfica brasileiro dos anos 1960 e 1970. Seus realizadores buscavam representar as desigualdades sociais, a fome, a violência, o subdesenvolvimento, os conflitos de classe e as contradições da identidade brasileira, propondo um cinema comprometido com a transformação da sociedade. Tinha como princípio a valorização da autoria e da experimentação formal, sintetizada na expressão de Glauber Rocha, “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, e reuniu diretores como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Cacá Diegues e o próprio Glauber Rocha. Tornou-se um dos mais importantes movimentos da história do cinema latino-americano e exerceu ampla influência sobre a produção audiovisual brasileira e internacional.
  9. Terra em transe – Filme dirigido por Glauber Rocha e lançado em 1967, considerado uma das obras-primas do Cinema Novo. Ambientado no fictício país de Eldorado, utiliza uma narrativa alegórica para refletir sobre a crise política, o populismo, o autoritarismo e os conflitos entre intelectuais, elites e forças populares na América Latina. Com linguagem inovadora e forte conteúdo simbólico, o filme tornou-se um dos maiores marcos do cinema político brasileiro e uma contundente crítica às estruturas de poder e às fragilidades da democracia. 
  10. Juventude transviada – Canção composta por Luiz Melodia e lançada em 1976, em meio ao período da ditadura militar, que se tornou um dos marcos de sua obra ao retratar, com lirismo e sensibilidade, o cotidiano da juventude das periferias urbanas. A música combina elementos do samba, da MPB e da cultura popular para refletir sobre liberdade, marginalidade, sonhos e contradições sociais, transformando a expressão “juventude transviada” em uma afirmação de resistência diante dos estigmas impostos à juventude brasileira.
  11. Parangolé – Obra-intervenção criada por Hélio Oiticica na década de 1960, composta por capas, estandartes e bandeiras coloridas concebidos para serem vestidos e movimentados pelo público. Inspirado na cultura popular, especialmente nas escolas de samba e na vivência da Mangueira, tornou-se um dos principais símbolos da arte experimental brasileira e da aproximação entre arte, cotidiano e liberdade de expressão.
  12. Transformados por Ferreira Gullar em hino nacional – Durante o exílio de Ferreira Gullar na Argentina, ele costumava afirmar que, para manter vivo o vínculo com o Brasil, substituía simbolicamente o Hino Nacional pelo samba-enredo “Heróis da Liberdade”. A canção tornou-se para Gullar, uma expressão mais verdadeira dos ideais democráticos e da identidade brasileira do que o hino oficial, apropriado pelo regime militar em cerimônias cívicas e propagandas nacionalistas. Assim, ao cantar Heróis da Liberdade em seu exílio, Gullar reafirmava seu pertencimento ao Brasil e transformava o samba em um verdadeiro hino da resistência contra a ditadura. 

 

ORIENTAÇÃO AOS COMPOSITORES

O enredo “Seja Marginal, Seja Herói – A Revolução em sua legítima razão” é, antes de tudo, um manifesto em defesa da liberdade. Ao celebrar os 80 anos do G.R.E.S. Império Serrano e os 90 anos da União Nacional dos Estudantes e 90 anos de Hélio Oiticica, nossa escola propõe um desfile que percorre a história da resistência democrática brasileira, da força transformadora da arte e da juventude organizada, reafirmando o carnaval como uma das maiores expressões populares de liberdade do país.

Os compositores devem compreender que o samba-enredo não narrará apenas acontecimentos históricos de maneira cronológica e com viés unicamente histórico. O objetivo é construir uma obra emocionante que una memória, poesia e emoção, traduzindo em linguagem popular o DNA do Império Serrano: a coragem de contestar injustiças, a defesa da democracia e a crença de que a cultura é instrumento de transformação social.

PRIMEIRO MOVIMENTO — O FOGO NÃO APAGA A MEMÓRIA

O samba pode apresentar o momento em que o Brasil viveu sob a sombra da repressão, da censura e da violência política. Não se trata de descrever episódios históricos de forma documental, mas de representar poeticamente a tentativa de apagar ideias, destruir sonhos e silenciar uma geração inteira.

O incêndio da sede da UNE, na Praia do Flamengo, simboliza esse ataque à liberdade. Contudo, a principal mensagem desse primeiro movimento é que a memória jamais pode ser destruída. As chamas queimam prédios, livros e bandeiras, mas não conseguem consumir o conhecimento, a esperança e o desejo de transformação.

A juventude organizada surge como protagonista dessa reconstrução. Das salas de aula aos grêmios estudantis, dos terreiros aos barracões, das ruas aos palcos, nasce uma geração que faz da resistência um ato permanente.

SEGUNDO MOVIMENTO — A ARTE COMO REVOLUÇÃO

A segunda parte representa a explosão criativa da Contracultura brasileira.

A arte deixa de ser apenas manifestação estética para tornar-se instrumento de contestação. Teatro, cinema, música, poesia, artes visuais e carnaval passam a ocupar o lugar da resistência quando a palavra é censurada.

Os compositores devem compreender que este não é um setor dedicado apenas aos artistas, mas à capacidade que o povo brasileiro possui de reinventar o mundo por meio das artes e da cultura.

TERCEIRO MOVIMENTO — O CARNAVAL COMO MANIFESTAÇÃO

O último movimento conduz toda essa trajetória até a Avenida. Depois da resistência política e da revolução artística, chega o momento em que o carnaval assume seu papel como manifestação popular.

A juventude desce o morro de cara pintada. Os parangolés transformam-se em bandeiras da liberdade. O desfile converte-se em passeata. O samba torna-se manifesto. A frase “Seja marginal, seja herói”, inspirada na obra de Hélio Oiticica, simboliza aqueles que desafiaram a ordem injusta para defender a liberdade. O marginal aqui não representa o criminoso, mas aquele que foi colocado à margem por questionar o autoritarismo, tornando-se, justamente por isso, herói da história.

O Império Serrano, conhecido historicamente como o “Menino de 47”, com seus sambas históricos como “Eu quero”, “E verás que um filho teu não foge à luta” e “Herois da Liberdade” caminha ao lado da juventude brasileira na defesa da liberdade, da igualdade, da democracia e da cultura popular.

CONSIDERAÇÕES GERAIS

O samba-enredo deverá privilegiar a emoção acima da cronologia. O fio condutor do enredo não é apenas as formas de resistência e contestação ao Regime Militar. Não se espera um inventário de fatos históricos ou uma sucessão de nomes próprios, mas uma narrativa poética capaz de transformar a pesquisa em imagens de forte impacto popular.

É desejável que a composição estabeleça conexões entre passado e presente, mostrando que a luta pela democracia permanece atual e que o carnaval constitui uma poderosa forma de expressão política, artística e cultural.

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